Rugby Mania

Guto Senra

Jogou na segunda geração Guanabara Rugby no Rio de Janeiro durante cinco anos, ajudando a formar este e muitos outros times locais, bem como o Volta Redonda Rugby Clube da sua cidade natal. Acabou se profissionalizando fora dos campos durante as comemorações. Desde que se desligou das competições, vem colaborando com Rugby Mania e ajudando na divulgação do esporte e praticando sempre que possível seu esporte preferido, o Terceiro Tempo. Hoje integra o elenco a primeira linha do Carioca Rugby F.C. Hoje integra efetivamente a equipe da Rugby Mania e voltou a jogar no seu clube. Neste meio tempo, criou o O´Jays Beach Rugby com outros veteranos e não pretende parar por aí. Contato: guto@rugbymania.com.br

Twitter Guto Senra

Com a palavra, Fernando Portugal para a Rugby Mania

março 19, 2013 às 01:30h
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Entrevista feita com nossa colunista Karlla Davis e o capitão da Seleção Brasileira de Rugby, Fernando Portugal. A entrevista foi feita com exclusividade para a Rugby Mania. Um grande análise do que mudou quadro do rugby no Brasil, um antes e um depois, e as perspectivas do que ainda vem por aí.

Com a palavra, o nosso Capitão Fernando Portugal.

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Foto: Dani Mayer/Fotojump

 Jogadores 

RM: Olá Portugal,  que dizer o Sr. tem a nos dizer  sobre as mudanças no número de jogadores  tanto nos clubes em que atuou como  na seleção?

FP: Aumentou o número de atletas nos últimos anos. Passávamos anos sabendo exatamente com que iríamos jogar, pois os elencos pouco mudavam. Hoje jogamos com jogadores novos constantemente.

RM: E sobre o empenho, alguma mudança neste aspecto?

FP: De certa maneira o empenho dos jogadores, na minha opinião, não mudou muito. Em outras épocas tivemos jogadores tão, ou mais empenhados do que os que hoje jogam na seleção e são destaque nos clubes. O que mudou foi a estrutura oferecida a estes jogadores e o calendário de jogos, que proporciona muito mais jogos.

Perspectivas para o Rugby

FP: Não existe outro caminho, que não seja o crescimento. Ficávamos a margem dos esportes brasileiros até que nos tornamos um esporte olímpicos. O crescimento é inevitável. A minha preocupação é para que esse crescimento seja ordenado e com segurança.

Treinadores e Treinos

RM: Um amigo uma vez me disse que antigamente para assistir um jogo era uma novela, então como era essa realidade de acesso a materiais de treino?

FP: Isso mudou muito. Hoje temos muito mais acesso a materiais que envolvam jogos e treinos de rugby pelo mundo todo, por causa da televisão, mas muito mais por causa da internet. Sendo assim, a facilidade de se atualizar é muito maior. O treinador tem mais argumento para montar seu treino, mas o jogador tem uma capacidade de assimilar muito maior, pelo fato de ver constantemente a jogos e treinos de alto nível. Sinto isso principalmente no universitário. A compreensão do jogo e seus objetivos aumentou muito entre os jogadores e facilita o trabalho do treinador.

RM: Você acha que a nacionalidade do treinador influencia na qualidade dos treinos?

FP: De maneira nenhuma. São estilos, metodologias e formas diferentes, que são melhores ou piores adaptáveis a determinando grupo.

 Idade –  Estamos tendo cada vez mais treinadores jovens pelos clubes por aí. Porém, o motivo, na minha opinião é que estão aumentando exponencialmente o número de clubes e faltam treinadores mais experientes. Já quanto a qualidade, não vejo porque um treinador mais jovem, ou mais velho possa ser melhor, ou pior treinador, a menos que um seja mais experiente que o outro.

RM: Como você enxerga o IRB Rugby Laws neste cenário de treinos e aprendizado?

FP: O IRB Laws pode auxiliar, mas de maneira nenhuma pode ser considerado uma material didático para o aprendizado de rugby. Existem ainda outros materiais oferecidos pelo IRB, mas são muito básicos. A internet, google, vídeos no youtube, podem auxiliar e especificar um pouco mais.

Estrutura

RM: Onde os clubes e a Seleção treinam? 

FP: A Seleção até pouco tempo não tinha um lugar fixo e ficava de deslocando de acordo com as possibilidades. Sempre conseguíamos campo para treinar, mas nem sempre eram adequados. Hoje já existe um CT, que está longe de ser o ideal, mas já é um lugar fixo onde treinamos. Os clubes, ainda que alguns tenham se encontrado em alguns campos por aí, ainda existe clube da primeira divisão que treina em praça.

RM: Como vocês tinham ou tem  acesso aos materiais? Na seleção quem pagava por isso antes dos patrocínios atuais?

FP: Uniformes e chuteiras sempre pagamos, mesmo na seleção, tirando raras exceções. Nos clubes também sempre pagávamos esses materiais. Hoje isso não acontece mais. As bolas eram difíceis de serem conseguidas. Eram caras. Hoje é facilidade é muito grande. Mas ainda assim existem clubes que sofrem pela falta desse material e seus jogadores tem que colaborar. Na seleção e no clube onde jogo temos muito desse material e ninguém precisa pagar nada.

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Foto: Arquivo Fernando Portugal.

Terceiro tempo
RM:
Como eram  comemorados os terceiros tempos  dentro da seleção? Mudou alguma coisa?

FP: Acho que os terceiros tempos eram mais charmosos no passado. Existiam mais cantos e confraternização entre os jogadores adversários. Isso mudou um pouco no ambiente mais competitivo, mas ainda sim é um costume e todos o respeitam. Na seleção também ainda mantemos esse ritual, mas é sempre muito mais controlado, afinal não existe tanta bebida e os jogadores não se alteram. Ficam comportados (rs).

Campeonatos
RM:
Quais eram os campeonatos nacionais no Brasil? Quem e como eram organizados?

FP: Nas primeiras divisões isso não mudou muito. Existia o campeonato paulista e o brasileiro e uma copa sudeste. Esses são os que eu fazia parte. Hoje temos muito mais jogos, mas a estrutura começou a mudar a pouquíssimo tempo, pois, como disse, ainda existem times sem campos, que tem dificuldade de mandar o seu jogo e muitas vezes alugam um lugar inapropriado. Eram organizados pela antiga ABR, mas os clubes/ jogadores arcavam com todas as despesas. Na verdade, aumentou um pouco o número de jogos por ano, mas não mudou muito. Hoje é organizado pela confederação e os clubes pagam uma inscrição.

Regras

RM: Quais leis do jogo mudaram mais de quando você começou pra cá?

FP: Acho que as mais significativas são os 5 metros do scrum e a das 22, que depende de quem introduziu a bola para o chute direto pra fora ser considerado lateral de onde saiu, ou de onde chutou. Alguns jogadore vivenciaram o rugby sem elevador no lateral, mas essa época não peguei. Outra importante é a do tackle “pilão”, quando um jogador derruba ou outro de cabeça no chão. Hoje essa ação é punida rigorosamente e naquela época era permitida. Tiveram algumas outras mudanças, mas que não se consolidaram, como por exemplo a de poder derrubar o maul.

Transição ABR – CBRu

RM: O que mudou com a mudança estrutural de Associação para Confederação do ponto de vista das Seleções e gerenciamento do rugby no território nacional?

FP: Sem dúvida nenhuma aumentou muito o número de pessoas que trabalham para a confederação. A ABR por muitas vezes teve apenas o presidente, que pouco poderia fazer. Hoje temos profissionais responsáveis em cada departamento da Confederação e o trabalho ficou mais eficiente e objetivo. Por outro lado, a demanda de trabalho da CBRu aumentou e hoje é muito mais exigida do que a ABR já foi um dia, por isso, alguns problemas ainda continuam.

RM: Tenho uma preocupação muito grande a respeito da preservação dos valores do rugby. Como você imagina que podemos garantir que nossos netos compartilhem destes mesmos valores?

Eu também tenho uma pessoal preocupação nesse sentido. É sabido que o profissionalismo no esporte pode desvirtuar alguns valores e acho muito difícil que o rugby consiga manter sua integral filosofia dentro de um ambiente profissional. Jogadores e treinadores mudando de clubes por melhores contratos e defendendo muito mais o interesse pessoal, do que o coletivo. Isso é inevitável. Por isso é tão importante o trabalho dos clubes nas categorias de base.

Esses valores que tanto falamos que existem no rugby, deverão ser incorporados pelas jogadores ainda nas suas idades de formação, para que consigam agir de acordo com a filosofia do rugby mesmo num ambiente amador. Isso sim é possível. Mas para isso se concretizar precisaremos qualificar muito bem os profissionais que irão transmitir esses valores. Com o aumento tão grande do número de clubes e de equipes que está acontecendo, é difícil de se selecionar os treinadores e alguns profissionais não qualificados podem assumir esses cargos. Aí dificilmente os valores serão corretamente transmitidos. Por isso, a qualificação dos profissionais que ensinam o rugby deve ser a primeira das atitudes a serem tomadas.

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Foto: Betho Alves

RM: Como você recebeu a notícia que seria Capitão da Seleção Brasileira de Rugby? Quais qualidades foram evidenciadas para que você assumisse este papel tão importante dentro das nossas Seleções?

FP: Tive dois capitães marcantes em grupos da seleção e outros tantos nos clubes. Na seleção O Marião no XV e o Sebá no Seven, foram especiais para a minha formação. A primeira vez que fui capitão de uma seleção foi na seleção juvenil M18 em 1999, em um sul-americano e fui escolhido pelo grupo. Os treinadores abriram para discussão e a maioria me elegeu. Imagino que o grupo sentia em mim uma segurança dentro de campo, mas como sempre fui um pouco mais sério fora de campo e com os compromissos do grupo, acredito que essa postura tenha contribuído.

Depois, com esse mesmo treinador do juvenil, Flávio Santos, fui capitão da seleção adulta de seven pela primeira vez em 2003. Na ocasião o Flávio estava com a proposta de renovar o grupo da seleção e eu era o mais experiente, ao lado do Maurício Carli que ficou encarregado de me passar sua expediência. Mas nesse período não existia uma atividade da seleção tão intensa que justificasse a manutenção de um único capitão, mesmo porque os grupos mudavam muito.

Somente em 2007, quando o Maurício Carli era o treinador da seleção de seven, voltei a ser capitão. Esse era um grupo bastante experiente e fiquei extremamente lisonjeado de ser indicado a este posto. No ano seguinte minha idéia era de não jogar mais pela seleção de seven, pois a seleção de XV iria jogar a Séria A do sul-americano e eu estava me preparando pra isso. O treinador do seven seria o Mauricio Coelho, atual treinador. Como somos amigos, mandei uma mensagem pra ele dizendo que não iria estar como jogador do grupo, mas que ele poderia contar com a minha ajuda na comissão técnica, caso achasse válido. Ele me ligou na mesma hora e disse que não queria contar com a minha ajuda fora do campo, mas sim dentro de campo e como capitão. Esse foi um dos momentos mais marcantes na minha história da seleção de seven. Conhecia bem o trabalho dele e a seriedade com que fazia as coisas e ser convidado para auxiliá-lo a liderar esse trabalho foi um motivo de grande orgulho. Sei de algumas características que ele reconhece em mim, que justificam esse cargo, por exemplo a disciplina com que procuro trabalhar dentro do grupo e na minha vida particular. Talvez tenha sido esse o motivo. Porém um capitão necessita da aceitação e reconhecimento do grupo de jogadores, muito mais do que da indicação do treinador.

Ainda teria que provar ao grupo que era capaz e que eles poderiam confiar. Era um grupo cheio de personalidades fortes e de atletas experientes. Felizmente tudo correu bem e nos entendemos incrivelmente bem, mas é claro que houveram alguns desencontros. Porém, não é um cargo que vc possa relaxar. Deve se preocupar e se preparar para ele sempre. E é o que procuro fazer.

Futuro
RM: Qual o recado pra garotada que está começando agora e para aqueles que se sentem desmotivados algumas vezes?

FP: O rugby sempre vale a pena. Não importa as dificuldades que passe para jogar rugby, pois vai passar, ele sempre te retribui com bons amigos, boas lembranças e bons sentimentos a cada esforço, que você faça. Sinto-me privilegiado de ter sido apresentado ao rugby e por ter vivido tudo o que ele me proporcionou.

Aqueles que tem a mesma sorte que eu, agarrem com todas as forças e a transmita a outras pessoas, para que mais gente possa desfrutar dessa paixão. Mais ou menos como quando você troca uma camisa de rugby com alguém e depois a presenteia a um outro amigo. Todos se beneficiam com aquele bom sentimento.

A Seleção Brasileira está neste momento em Hong Kong para disputar o IRB World Sevens.

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Recentemente Fernando Portugal voltou a vestir a camisa do São José, seu antigo clube .

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