Rugby Mania

Paul Tait

Paul começou a escrever para RugbyMania em 2008. Nascido na Nova Zelândia, mudou-se para o Brasil após encontrar sua esposa brasileira nos EUA, quando trabalhava por lá em 2002. Ele mora permanentemente aqui desde 2006. Seu maior interesse é ver mais equipes competindo em alto nível para termos melhores mundiais de rugby. Paul escreveu um livro Rugby World Cup Argentina 2023 que foi publicado em 2012. Contato: paul_tait@rocketmail.com

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RBS 6 Nações: França totalmente sem noção!

fevereiro 12, 2013 às 22:25h
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Depois de duas rodadas do Torneio RBS 6 Nações resta apenas um time que não ganhou ainda: a França. Os Bleus terminaram o ano de 2012 como o quarto melhor no ranking do IRB, mas atualmente está em quinto lugar depois de perder contra Itália e País de Gales – dois resultados inexplicáveis. A quantidade de atletas que a França tem é muito maior e a quantidade de atletas de primeiro nível também é muito superior. Mesmo assim a França perdeu e jogou sem noção em casa contra o País de Gales no sábado passado. Foi uma combinação de erros por parte do treinador e da FFR (Federação Francesa de Rugby). O treinador é quem tem a responsabilidade de escolher os melhores jogadores por posição para juntar e jogar num estilo pré-determinado  que tenha mais chances de  virar sucesso em campo. Em novembro passado, o mesmo treinador conseguiu dominar a Austrália e também derrotar Argentina e Samoa. Mas em 2013, com jogadores similares, a qualidade do rugby produzido pelo treinador Phillipe Saint-André (PSA) é baixo e se ele não conseguir duas vitórias entre os três jogos restantes (Escócia, Inglaterra e Irlanda) é bem provável que ele vá ser despedido.

Atualmente todos os jogadores jogam dentro da França. Desde 2010 a França parou de ter jogadores que atuam na Inglaterra na seleção. A diferença de orçamento entre clubes da Aviva Premiership e do Top 14 tornou-se tão grande que a quantidade de jogadores da França no país vizinho quase zerou enquanto muitos ingleses jogam na França hoje. Os clubes franceses estão cada vez mais poderosos dentro e fora de campo. O fato que Toulon pode ter Jonny Wilkinson, Fredéric Michalak e Matt Giteau explica tudo. Jogadores importados existem para os clubes terem segurança. Eles não podem só contar com jogadores da França porque a qualidade da liga é superior a quantidade de atletas de qualidade que França produz. Os ingredientes estão dentro da França para formar um time campeão do mundo em 2015, mas atualmente a seleção está um caos. Gales e Itália tem times bons mas a diferença entre seus jogadores nesta temporada e os da França é grande.

O time italiano que venceu a França teve jogadores do Top 14 e da Aviva Premiership, mas a grande maioria jogar para o Benetton Treviso ou o Zebre na RaboDirect Pro12 (Liga Ítalo-Celta). No time de País de Gales havia dois jogadores do Top 14 e treze da RaboDirect Pro12.  Nenhum time da Itália ou Gales conseguiu classificar para as quartas-de-finais da Heineken Cup enquanto a França vai ter o Clermont-Auvergne, o Montpellier e o Toulon. Contra a França, a Itália jogou com Andrea Masi (London Wasps), Martín Castrogiovanni (Leicester Tigers), Andrea Lo Cicero (Racing-Métro) e Sergio Parisse (Stade Français) enquanto Gales jogou com Mike Phillips (Bayonne) e Gethin Jenkins (Toulon). As derrotas não fazem sentido e mostra claro que Phillipe Saint-André falhou contra ambos países.

Alternativas

O treinador francês Phillipe Saint-André pode ser substituído por vários treinadores do Top 14 e outros baseados fora da França. O treinador atual da Itália é francês e não há duvidas que Jacques Brunel é um técnico melhor que PSA. Brunel levou o Perpignan ao titulo em 2009 com um time bem inferior no papel do que Clermont, Stade Français e Toulouse. PSA como treinador do Toulon com um time repleto de astros não conseguiu ganhar a semifinal contra o Clermont em 2010. Brunel tem experiencia de sucesso para montar um time com desvantagens e ganhar. PSA já conquistou a Aviva Premiership com o Sale Sharks em 2006 mas foi escolhido a frente de outros com sucesso na França. Além de Brunel, três grandes candidatos para ser considerados são Guy Novès (Toulouse), Fabien Galthié (Montpellier e ex-Stade Français) e o Neozelandês Vern Cotter (Clermont). Todos os três treinadores, assim como Brunel,  já ganharam o Top 14.

Estilo

PSA como treinador tem o que Richie McCaw chama de estilo Biarritz e não o estilo Toulouse. Nas palavaras de McCaw, quando a França jogar como Biarritz é mais fácil derrotá-la e também falta a atitude certa para ela vencer. No contrario, o estilo de Toulouse mostra mais fome para vencer com a França jogando com muito mais bola na linha e usando o campo inteiro. Quero dizer que com PSA times geralmente tem menos ataque e jogam com mais defesa e chutes dentro do campo. Foi bem claro no jogo contra Gales no sábado que PSA tinha mandando seu time jogar para defender sua vantagem no placar e não para fechar o jogo. Mesmo assim ele está com uma combinação estranha de jogadores que não permitiram a França de comandar o jogo.

O estilo Biarritz precisa de Dimitri Yachivili  ou Morgan Parra de meio-scrum e não Maxime Machenaud. Como PSA jogou com Machenaud de titular, parece que ele escolheu quem ele acha que são os melhores jogadores primeiro e o estilo em segundo lugar.  No mundial de 2011 o treinador Marc Lievremont foi criticado pelo estilo do jogo. Depois de não conseguir jogar bem nas vitórias contra Japão e Canadá ele mudou o estilo de jogo totalmente para jogar mais como o Biarritz. Assim ele tirou Trinh-Duc de titular e mudou Parra para abertura com Yachvili jogando de meio-scrum. Não deu certo mas a França conseguiu se classificar para as quartas-de-finais e enfrentou a Inglaterra. Lievremont continuou com Yachvili e Parra e jogou mais aberto para derrotar a Inglaterra, mas o estilo ainda foi muito Biarritz e pouco Toulouse. Na semifinal foi 100% Biarritz e a França teve sorte de ganhar contra Gales. Na final foi Toulouse, mas ainda com Yachvili e Parra. Trinh-Duc entrou depois que Parra tomou uma joelhada de McCaw e ele ajudou a França a realmente jogar melhor.

Yachvili foi um dos melhores para França no mundial porque ele sabe como controlar o jogo. Quando Biarritz tem sucesso no Top 14 ou Heineken Cup é sempre com Yachili comandando o jogo e nunca com um abertura de qualidade. Para a França é a mesma coisa. Yachvili tanto como Parra é melhor com um abertura organizado do que um que ataca. Ou seja, Yachili seria bom com Jonny Wilkinson ou Morné Steyn, mas não com Jonny Sexton ou Dan Carter. O Toulon tem sucesso com Wilkinson e com Michalak de abertura. Com Wilkinson, é o estilo Biarritz e com Michalak é o estilo Toulouse. O Toulon tem um excelente meio-scrum, Sébastien Tillous-Borde, que não combina com Wilkinson e é por isso que muitas vezes tem Wilkinson de abertura com Michalak de meio-scrum ou Michalak de abertura com Tillous-Borde de meio-scrum.

PSA optou por jogar com Machenaud e Michalak de meio-scrum e abertura, mas jogando um rugby Biarritz e não um Toulouse. O problema central das derrotas é isto. Ele quer jogar um estilo, mas com os jogadores errados. Machenaud nem Michalak jogaram mal, mas juntos eles não funcionam e não pode continuar. PSA falou em não ter um ponta ou fullback entre os reservas contra País de Gales e assim ele colocou Trinh-Duc de fullback e Yoann Huget mudou para ponta. Huget é um ponta e não um fullback mas não deu certo porque o ataque não foi bem organizado por ter o erro no estilo Biarritz e Toulouse. Como Mickalak, Trinh-Duc é do estilo Toulouse e ele perdeu seu lugar no time durante a Copa do Mundo por causa disso. PSA tem que responder igual a Lievremont.

Vai ser Biarritz ou Toulouse? A pergunta central  é esta. Se for Biarritz, PSA não pode jogar com Michalak ou Trinh-Duc de abertura. Richard Escot, jornalista do L’Equipe e biógrafo de PSA, concorda e ele quer uma seleção bem modificada para enfrentar a Inglaterra no dia 23 de fevereiro em Londres. Escot quer jogar ao estilo Biarritz com Yachvili de meio-scrum e Parra de abertura. Ele sugeriu que PSA mude bastante a equipe. Para ele, o time para enfrentar a Inglaterra deve contar com muitos jogadores que estão fora da seleção atualmente. O XV de France dele é assim:

Thomas Domingo, 2 William Servat, 3 Nicolas Mas
(Castres, FRA), (Racing Métro, FRA) (Perpignan, FRA)
Julien Pierre, 5 Lionel Nallet
(Clermont, FRA), (Lyon, FRA)
Imanol Harinordoquy, 8 Louis Picamoles, 7 Thierry Dusautoir
(Biarritz, FRA), (Toulouse, FRA), (Toulouse, FRA)

Dimitri Yachvili, 10 Morgan Parra

(Biarritz, FRA), (Clermont, FRA)
12 Yannick Jauzion, 13 Wesley Fofana
(Toulouse, FRA), (Clermont, FRA)
11 Aurelin Rougerie, 15 Yoann Huget, 14 Vincent Clerc
(Clermont, FRA), (Toulouse, FRA), (Toulouse, FRA)
* Não enfrentou Itália ou Gales.

Não vai acontecer contra Inglaterra porque PSA já definiu sua lista de 23 jogadores para o jogo. A lista tem alguns jogadores da lista de Escot e assim seria possível fazer mudanças como Domingo de pilar, Fofana de centro, Clerc de ponta e Parra de Abertura. A lista é a seguir:

França Inglaterra

rugbyrama.fr

Mesmo assim a lista dos 23 tem jogadores que merecem ser titulares e que não enfrentaram País de Gales, Itália ou ambos.  PSA fez cinco mudanças e usou o machado. De volta estão Antonie Claassen, Vincent Clerc, Thomas Domingo, Yannick Nyanga e Christophe Samson. Eles entraram nos lugares de Fulgence Ouedraogo, Maxime Mermoz, Yannick Forestier, Damien Chouly e Romain Taofifenua. PSA deveria ter convidado mais jogadores, mas com as cinco mudanças é possivel se preparar do modo certo para jogar no estilo Biarritz ou Toulouse. A escolha tem que ser feita. Não pode ser misturado. O estilo Toulouse precisar de mais confiança e isto é uma coisa que está faltando atualmente. Jogos contra Inglaterra geralmente tem poucos tries e por causa disso PSA deveria jogar no estilo Biarritz com um scrum muito forte e centros melhores do que foi mostrado contra Itália e Gales.

Sugiro que PSA ponha mais jogadores do Clermont Auvergne em campo. O clube venceu seu grupo na Heineken Cup sem perder. Isso incluiu uma vitoria contra o Leinster em Dublin. O melhor centro na Heineken Cup nesta temporada não é Brian O´Driscoll, Jamie Roberts ou Manu Tuilagi. O melhor é Wesley Fofana (ao contrário do que disseram na TV brasileira) que joga de primeiro centro para o Clermont, mas que PSA está com ele de ponta. Um erro grave. Fofana tem que ser primeiro centro com Florian Fritz ou Mathieu Bastareaud de segundo centro. Sugiro Bastareaud para enfrentar Manu Tuilagi. O estilo Biarritz precisar de um fullback confiável e Yoann Huget não é, mas PSA não tem outro na lista dos 23. Os pontas deveriam ser Vincent Clerc e Benjamin Fall e Fredéric Michalak seria melhor no banco do que de titular. Trinh-Duc é titular absoluto no Montpellier e jogando muito bem. Ele tem experiência de jogar com Parra, o que falta a Michalak. Nos forwards (avançados) Thomas Domingo tem que ser titular de pilar esquerdo com Nicolas Mas de pilar direito. Há problemas com a segunda linha, mas entre os três da lista, Samson seria o reserva. Na terceira linha, PSA vai precisar de Nyanga de titular para ter mais velocidade e uma opção confiável nos laterais.

XV sugerido par enfrentar Inglaterra

Thomas Domingo, 2 Dimitri Szarzewski, 3 Nicolas Mas
(Clermont, FRA), (Racing Métro, FRA) (Perpignan, FRA)
Yoann Maesti, 5 Jocelino Suta
(Toulouse, FRA), (Toulon, FRA)
Yannick Nyanga, 8 Louis Picamoles, 7 Thierry Dusautoir
(Toulouse, FRA), (Toulouse, FRA), (Toulouse, FRA)

Morgan Parra, 10 François Trinh-Duc

(Clermont, FRA), (Montpellier, FRA)

12 Wesley Fofana, 13 Mathieu Bastareaud
(Clermont, FRA), (Toulon, FRA)
11 Vincent Clerc, 15 Yoann Huget, 14 Benjamín Fall
(Toulouse, FRA), (Toulouse, FRA), (Racing Métro, FRA)
* Mudanças do time

No fundo PSA não é totalmente culpado pelos resultados. É claro que ele tem que preparar os jogadores e não jogar. Mas, por fim, o jeito que a França jogou foi culpa dele. A FFR é culpada por escolher PSA como treinador a frente de Novès e outros, mas a decisão foi tomada e isso não significa que PSA não é um bom treinador. A FFR confia em PSA e ele já deixou claro que não está satisfeito com a FFR por causa da falta de tempo que ele tem com os jogadores – devido a disputa entre a FFR e a LNR (Liga Nacional de Rugby – entidade que representa os clubes profissionais do Top 14 e Pro D2). PSA quer mais tempo com seus jogadores e quer que eles joguem menos por seus clubes. Gales tem o controle sobre os jogadores que atuam dentro do próprio país, mas PSA não tem sobre os atletas dentro da França (atualmente todos). Assim, ele tem menos tempo para preparar o time e também tem atletas mais cansados do que seus adversários.

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